Peña Vieja – Esporão dos Franceses (Picos da Europa – parte 2)

Depois de termos realizado a via Pidal-Cainejo no Naranjo de Bulnes o tempo mudou tal e qual estava previsto. Nos três dias seguintes a instabilidade, com nuvens nas montanhas e alguns períodos de chuva, foi a tónica. Aproveitamos para descansar alguma coisa, fazer as habituais compras e realizar o trilho dos Lagos de Covadonga. Mas também para mudar a estadia para o lado sul de forma estarmos perto do nosso próximo projecto: o Esporão dos Franceses em Peña Vieja.

Trata-se de uma via longa, com cerca de 1000 metros, não muito difícil, mas complexa, que exige uma leitura dos lances de forma a nos enganarmos. É também uma via onde o abandono pode ser complicado, com poucas escapatórias, sendo que a partir de determinado momento, a forma mais fácil é sair por cima. Podemos dizer que é composta por duas partes. A primeira de escalada “pura e dura”, com cerca de 700 metros, seguida por uma outra fácil mas longa e onde encontrar o caminho pode ser ainda mais difícil do que encontrar a via na parte inferior.

Antes de avançarmos ainda fomos no dia anterior dar uma volta com a família pelos prados de Àliva e aproveitar para espreitar a via. Conforme tivemos oportunidade de comprovar, quando estamos na base não temos a ideia  do tamanho da segunda parte. Ainda podemos observar uma cordada a terminar a parte superior, passar os gendarmes e a chegar ao canal de saída. Contrariamente ao que encontramos no Naranjo de Bulnes não é habitual partilhar a via com mais cordadas. A escalada de montanha que gostamos.

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Infelizmente os horários do teleférico de Fuente Dé não são favoráveis para quem quer subir cedo para escalar. Se queremos madrugar somos obrigados a subir no dia anterior e dormir perto da base. Como estávamos com um jeep tivemos a sorte de ter uma parceira condutora que se levantou cedo para nos deixar na base e aproveitar para dar umas voltas. E que voltas…

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Eram 9 horas estávamos na base do esporão a decidir-nos se iamos para cima ou não. O dia tinha amanhecido com montes de vento, algumas rajadas ainda nos abanavam, e as nuvens brincavam no céu tapando o sol de vez em quando.

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As previsões indicavam que, se chovesse, seria já no inicio da noite. No entanto este inicio da manhã não dava segurança nenhuma. Sendo uma via onde escapar seria complicado mais duvidas nos deixava.

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Inicio do 1º lance

Lá acabamos por arrancar e iniciar o primeiro lance, fácil, mas já com a tónica de toda a via: por onde será o próximo lance?. Acabou por ser o único lanço de escalada onde tivemos que fazer uma correcção e voltar a descer uns metros para iniciar a travessia do 2º lanço. Também houve outra situação que tivemos que ajustar. Estando nós com cordas de 60 metros acabamos conseguir, em algumas partes, juntar dois, e mesmo três lances, dos croquis mais antigos.

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Segunda reunião já depois da primeira travessia

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Inicio 3º lance

Sendo uma via com mais de 40 anos, onde se procurou seguir as fragilidades da parede, é importante ir subindo com atenção e não ir atrás de todos os pitões ou pontos fixos que encontramos. Tivemos esse exemplo logo na reunião no fim do 1º lance. Daqui víamos pelo menos uma reunião e alguns pontos a meio de uma placa que nos pareceu bem mais difícil do que os graus que era suposto atravessarmos. Acabamos por seguir por uma zona mais acessível e onde os pitões também existiam, mas não se viam da reunião.

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3º lance e antes da segunda travessia

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Os lances vão se seguindo a bom ritmo (para quem não conhece a via), e o vento continua. Felizmente, e por uma troca de ultima hora, ambos trouxemos rádios. E que jeito nos deram! Com o vento houve alturas que não conseguíamos ouvir-nos um ao outro e termos forma de comunicar facilitou enormemente. Além que a nossa boleia-montanheira conseguiu falar quase sempre com um de nós durante as suas voltas em torno da Peña Vieja.

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Segunda travessia

Chegamos à segunda travessia que nos coloca novamente no “fio” do esporão. É curioso que em vários croquis encontramos como “travessia exposta”. Ficamos sem saber porquê já que, para além de bastante acessível, proteger não é propriamente difícil.

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Na reunião por cima do “El Dado” e todo o vale de Àliva por trás

A travessia deixa-nos em cima de um enorme bloco de rocha conhecido como o “El Dado” que serve de referencia na via. A partir deste local a via segue o esporão com uma notória tendência pela lago esquerdo.

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No 5º lance

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Acima do V+ do 6º lance

No 7º e 8º lance a via segue mais próximo da ponta do esporão e a rocha piora de qualidade. Aqui encontramos bastantes blocos soltos e mais dificuldade em montar as reuniões.

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Vista para a reunião do 7º lance

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7º lance, mesmo na aresta

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Na sétima reunião

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Saída para o 8º lance

Apesar de em determinada altura o céu ter estado de tal maneira coberto que achamos que não íamos ter tempo para sair da parte de escalada, o tempo foi-se aguentando e chegou mesmo a voltar o sol para nos aquecer do vento frio.

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Chegada à 8ª reunião

Pelas nossa contas, e considerando os lances usando cordas de 60 metros, faltava-nos dois lances para alcançar os dois gendarmes de saída. Um era um conhecido lance de placa sobre os característicos canalizos dos picos, e o outro acabou por ser o lance, não mais difícil, mas o que tem mais continuidade de toda a via.

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Inicio do 9º lace

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Na saída

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No diedro de inicio do 10º lance

O horário estava razoável, o tempo aguentava-se e até o vento parecia quer acalmar. Tudo parecia conjugar-se para chegarmos ao cume dentro do previsto. Estávamos no cimo do esporão e por baixo de nós estendia-se os prados de Áliva com o seu refugio-hotel e o conhecido Refugio do Rei (que afinal não tem nada a ver com os réis de Espanha como pensávamos mas é sim propriedade do governo autónomo das Astúrias).

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Chegada à 10ª reunião

Faltava-nos os dois lances que contornam os dois gendarmes que se destacam no cimo do esporão. Aqui a rocha volta a piorar e as protecções são praticamente inexistentes. São, contudo, dois lances bonitos em especial o ultimo sobre o rocha laranja.

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Saida da 10ª reunião

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11º lance que termina na base do primeiro gendarme

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Ultimo lance da parte de escalada

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Acabando o esporão propriamente dito, seguimos um evidente canal ascendente e com passos de IIº grau, que nos deposita na aresta com vista para os canais de la Mina e del Vidrio.

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Daqui continuamos pela aresta até a um rappel para um colo com local de vivac que é referencia nas ascensões invernais. Neste local voltamos a encontrar algumas marcas brancas que esporadicamente fomos encontrando ao longo da via mas que infelizmente não são continuas nestas zona de trepes e destrepes. Assim outros escaladores acabaram por colocar mariolas (pedras sobre pedras a marcar o caminho) que nem sempre vão por deveriam.

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No rappell da aresta

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Confiando numa dessas mariolas acabamos por seguir pelo fio da aresta, com montes de trepes, destrepes e rappeis, e acabamos por perder horas naquilo que devia ser uma ascensão relativamente “fácil”. Após um rappel para um colo, e vendo que a aresta continuava a não ter o aspecto devido, descemos mais na face do Canal de la Mina para tentar outra solução.

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O Naranjo de Bulnes a espreitar

Lá acabamos por dar caminho já na penumbra do final do dia. Este sim, condizia com as informações que disponhamos, mas contornava muito mais abaixo toda a parte de aresta onde tínhamos estado.

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Já na tão procurar “vira”

Mais uns canais e alcançávamos o cimo de Peña Vieja. Não de dia, como estávamos a pensar, mas pelo menos umas quatro horas mais tarde.

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Finalmente o cimo!

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Faltávamos ainda as cerca de duas horas de descida, novamente envolvidos no vento que se voltou a levantar. Na descida do canal de Canalona tivemos mesmo que nos segurar para nos mantermos de pé. Já passava da meia-noite quando entramos novamente no jeep para descer ao parque. Isto sem deixar de dar boleia a um casal de espanhóis e ao seu filho que se aventuraram a subir aos Horcados Rojos depois de almoço que acabaram por perder o ultimo teleférico. Eles preparavam-se para descer a pé pelo estradão até Espinama, e depois a Fuente Dé para ir buscar o carro, mas saiu-lhes a sorte grande ao encontrar a nossa condutora-montanheira.

Temos que agradecer a ela a paciência de ter esperado por nós e à outra mamã de ter tomado conta de toda a criançada ao longo deste dia.

Infelizmente os dias livres terminavam e restava-nos arrumar as coisas e regressar a casa.

Um pensamento sobre “Peña Vieja – Esporão dos Franceses (Picos da Europa – parte 2)

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